INTRODUÇÃO
A hidroterapia vem sendo indicada e
utilizada por médicos e fisioterapeutas em programas de reabilitação
multidisciplinares nas mais diversas áreas. É um recurso fisioterapêutico que
tem demonstrado bons resultados no tratamento e prevenção de diversas patologias
ortopédicas, neurológicas e pediátricas, entre outras.
Com o seu ressurgimento na década
passada, houve um grande crescimento e desenvolvimento das técnicas e
tratamentos utilizados no meio aquático. É pertinente a este artigo o
esclarecimento e a conscientização dos profissionais que utilizam as atividades
aquáticas como parte do processo de reabilitação.
DEFINIÇÃO
O conceito do uso da água para fins
terapêuticos na reabilitação teve vários nomes como: hidrologia, hidrática,
hidroterapia, hidroginástica, terapia pela água e exercícios na água.
Atualmente, o termo mais utilizado é reabilitação aquática ou hidroterapia (do
grego: "hydor", "hydatos" = água / "therapeia" =
tratamento). Existem diversas formas de se usar a água como elemento terapêutico.
O termo hidroterapia engloba todas elas, mas podem ser diferenciadas algumas
formas distintas de utilização da água em processos profiláticos ou
terapêuticos, tais como:
1- Hidroterapia
por via oral
2- Balneoterapia
3- Duchas
quentes, frias ou mornas
4- Compressas
úmidas
5- Crioterapia
6- Talassoterapia
7- Fangoterapia
8- Crenoterapia
9- Saunas
10- Turbilhão
11- Hidromassagem
12- Hidrocinesioterapia
ou fisioterapia aquática.
HISTÓRICO
A utilização da água como meio de cura vem
sendo descrita desde a civilização grega (por volta de 500 a.C.). Escolas de
medicina foram criadas próximas às estações de banho e fontes desenvolvendo,
assim, as técnicas aquáticas e sua utilização no tratamento físico específico.
Hipócrates já utilizava a hidroterapia para pacientes com doenças reumáticas,
neurológicas, icterícia, assim como tratamento de imersão para espasmos
musculares e doenças articulares (460-375 a.C.). Já os romanos utilizavam os
banhos para higiene e prevenção de lesões nos atletas. Esses banhos de temperatura
variada evoluíam desde muito quentes (caldarium), mornos (tepidarium), até mais
frios (frigidarium). Com o tempo esses banhos deixaram de ser de uso exclusivo
dos atletas e se tornaram centros para a saúde, higiene, repouso e atividades
intelectuais, recreativas e de exercícios, de acesso a coletividade. Em meados
de 330 d.C., a finalidade principal dos banhos romanos era curar e tratar
doenças reumáticas, paralisias e lesões. Com o declínio do Império Romano, o
uso do célebre sistema de banhos caiu em ruína ao longo de décadas e por volta
do ano 500 d.C foi extinto. Na Idade Média, com a influência da religião, que
considerava o uso das forças físicas e os banhos de água um ato pagão, teve um
declínio ainda maior, persistindo até o século XV, quando houve um ligeiro
ressurgimento. O uso terapêutico da água, no entanto, começou a aumentar
gradualmente no início dos anos de 1700, quando um médico alemão, Sigmund Hahn,
e seus filhos defenderam a utilização da água para tratamento de úlceras de pernas
e outros problemas médicos. Essa nova conduta médica passa a chamar-se
hidroterapia que, conforme a definição de Wyman e Glazer, consiste na aplicação
de água sob qualquer forma para o tratamento de doenças. Baruch cita a
Grã-Bretanha como o lugar de nascimento da hidroterapia científica, com a
publicação dos primeiros trabalhos em 1697 por Sir John Floyer (An Inquiry into
the right use and abuse of hot, cold and temperate buths - Uma investigação
sobre o uso correto e o abuso dos banhos quentes, frios e temperados). Baruch
acreditava que o tratamento de Floyer influenciara os ensinamentos da
Heidelberg University, através do professor Fridrich Hoffmann, que incluía as
doutrinas de Floyer nos seus ensinamentos. Esses ensinamentos foram levados
para França e Inglaterra pelo professor Currie, que elaborou vários trabalhos
científicos sobre a hidroterapia. Embora o trabalho de Currie tenha sido pouco
aceito na Inglaterra, o inverso aconteceu na Alemanha. John Wesley, o fundador
do metodismo, escreveu um livro em 1747, enfocando a água como um meio
curativo. Os banhos de vapor quente seguidos por banhos frios foram
popularizados e se tornaram tradição, na cultura escandinava e na russa,
durante muitas gerações. Em meados do século XIX, o professor austríaco Winterwitz
(1834-1912) fundou uma escola de hidroterapia e um centro de pesquisa em Viena,
onde realizava estudos científicos que estabeleceram uma base fisiológica
aceitável para a hidroterapia naquela época. Seus discípulos, particularmente
Kelogg, Brixbaum e Strasser, trouxeram contribuições importantes para o estudo
dos efeitos fisiológicos do calor e frio e sobre os termorregulados do corpo na
aplicação da hidroterapia clínica. Tais pesquisas serviram de impulso
importante na instalação dos banhos de turbilhão e exercícios subaquáticos que
entraram em uso regular só no começo do século XX. Um dos primeiros
norte-americanos a dedicar seus estudos à hidroterapia foi o dr. Simon Baruch.
Ele realizou seus trabalhos a partir de estudos que fez com o dr. Wintirwitz na
Europa. Publicou livros como "O uso da água na medicina moderna" e
"Princípios e prática da hidroterapia". Ele foi o primeiro professor
na Columbia University a ensinar a hidroterapia. A partir dessa época, a água
deixa de ser utilizada de uma forma passiva, através de banhos de imersão, e
começa a ser utilizada de uma forma mais ativa, empregando a propriedade de
flutuação para a realização de exercícios. Em 1898, o conceito de
hidroginástica, que implica o uso de exercícios dentro da água, foi recomendado
por von Reyden e Goldwater. Em 1928, o médico Walter Blount descreveu o uso de
um tanque com turbilhão ativado por motor que ficou conhecido como "Tanque
de Hubbard". Tal invenção foi criada para a execução de exercícios pelos
pacientes na água que, por sua vez, trouxe para a Europa grande desenvolvimento
de técnicas de tratamentos aquáticos, como o método dos anéis de Bad Ragaz e o
método Halliwick (2). No Brasil, a hidroterapia científica teve início na Santa
Casa do Rio de Janeiro com banhos de água doce e salgada. Naquela época a
entrada principal da Santa Casa era banhada pelo mar (em meados de 1922)( 3).
Atualmente, o conteúdo de instrução em fisioterapia aquática nos programas
acadêmicos é uma prática cada vez mais freqüente, com um índice de 62% de
inclusão no currículo de nível básico. Embora a reabilitação aquática venha
realizando grandes avanços desde o começo do século XX, é preciso intensificar
ainda mais a utilização desta prática terapêutica pelos profissionais da saúde
que acreditam nos seus benefícios, estimulando a incorporação da reabilitação
aquática nos programas de tratamento terapêutico.
EFEITOS FISIOLÓGICOS E TERAPÊUTICOS DA ÁGUA
Efeitos fisiológicos na água aquecida São
resultantes do exercício executado e variam de acordo com as temperaturas da
água, a pressão hidrostática, a duração do tratamento e a intensidade dos
exercícios. Outro fator importante é que as reações fisiológicas podem ser
modificadas pelas condições da doença de cada paciente. Muitos efeitos
terapêuticos benéficos obtidos com a imersão na água aquecida (como o
relaxamento, a analgesia, a redução do impacto e da agressão sobre as
articulações) são associados aos efeitos possíveis de se obter com os
exercícios realizados quando se exploram as diferentes propriedades físicas da
água, como:
· Densidade
relativa - determina a capacidade de flutuar de um objeto ou corpo. A densidade
da água é igual a 1, já a de um corpo humano é de 0,93, por isso ele flutua
· Força de empuxo ou de flutuação - é a força
de sentido oposto ao da gravidade. Ou seja, ao inspirar, o indivíduo bóia e ao
expirar ele afunda, pois com 5% da estrutura corporal acima da água, o corpo
humano flutua. Essa propriedade é utilizada como resistência ao movimento,
sobrecarga natural, estímulo à circulação periférica, fortalecimento da
musculatura respiratória, facilitação do retorno venoso e participante do
efeito massageador da água
· Tensão
superficial - atua como resistência ao movimento. Possui valor apenas quando o
músculo é pequeno ou fraco
· Pressão hidrostática - a água, como qualquer
líquido, exerce pressão no objeto nela imerso. Se o objeto estiver em repouso
(relaxamento), a pressão exercida em todos os planos será igual. Se o objeto
estiver em movimento e a água também, ver-se-á a pressão reduzida bem como o
empuxo provocando certo afundamento que, se controlado, é parcial. Segundo a
lei de Pascal, cada tipo de massa (corpo, líquido, gasoso ou sólido) recebe e
transmite uma pressão determinada, dependendo da profundidade de imersão. Quanto
maior a profundidade em que o corpo se encontra, maior será a pressão exercida
sobre ele. Isto significa que um indivíduo em pé na água sofrerá maior pressão
nos pés. A pressão hidrostática possui efeitos terapêuticos, promovendo aumento
do débito cardíaco, da pressão pleural e da diurese.
· Impacto - ao contrário dos exercícios no
solo, os aquáticos são executados em baixa velocidade, diminuindo o impacto, o
que faz diminuir também os problemas advindos de tal formação, quando em solo.
Nos diferentes sistemas os efeitos encontrados são: · Sistema termorregulador:
a manutenção do calor da água durante a terapia diminui a sensibilidade da
fibra nervosa com rapidez (tato) e a exposição prolongada diminui a dor,
através da sensibilidade da fibra nervosa lenta. Então, na temperatura de 33°C
a 36,5°C haverá:
· Dilatação dos vasos sangüíneos, levando ao
aumento do suprimento sangüíneo periférico e elevação da temperatura muscular,
que leva ao aumento do metabolismo da pele e dos músculos e, conseqüentemente,
ao aumento do metabolismo geral e da freqüência respiratória
· O aumento
da atividade das glândulas sudoríparas e sebáceas à medida que a temperatura
interna elevar-se.
·
Sistema
cardiorrespiratório: haverá mudanças como:
1. Melhora da
capacidade aeróbica
2. Melhora nas
trocas gasosas
3. Reeducação respiratória
4. Aumento no consumo de energia
5. Auxílio no
retorno venoso
6. Melhoria da
irrigação sangüínea, resultando na estabilidade da pressão arterial e no retardo
do aparecimento de varizes.
· Sistema nervoso: o calor relativamente brando
reduz a sensibilidade das terminações sensitivas e, à medida que os músculos
são aquecidos pelo sangue que os atravessa, seu tônus diminui levando ao
relaxamento muscular.
· Sistema
renal: com a variação do pH e da profundidade na qual o corpo está submerso, há
aumento dos fluidos corporais, levando ao aumento da diurese profunda. Isso
porque o sangue, ao ser bem distribuído, melhora a circulação venosa e,
conseqüentemente, a resposta renal e o estímulo ao processo de micção,
devendo-se tomar cuidado com pacientes com incontinência.
· Sistema
imunológico: alguns estudos comprovam que a aplicação intensa e prolongada de
calor úmido penetra até 3,4 cm, atingindo inclusive camadas superficiais dos
músculos. Promove, também, o aumento do número de leucócitos, além da melhora
das condições tróficas, levando a um quadro geral mais saudável do paciente.
· Sistema músculo-esquelético: os exercícios
físicos podem começar nas primeiras fases do tratamento, de modo que os
músculos possam ser relaxados e o metabolismo estimulado, ocorrendo:
1. Redução do
espasmo muscular e das dores
2. Diminuição
da fadiga muscular
3. Melhora da
performance geral (trabalho de agonistas e antagonistas igualmente)
4. Recuperação de
lesões
5. Melhora do condicionamento físico
6. Auxílio no alongamento muscular
7. Aumento ou
manutenção das ADMs
8. Melhora da resistência e da força muscular
(trabalho equilibrado).
Efeitos terapêuticos da água aquecida
Preventivo:
1. Previne deformidades
e atrofias
2. Previne
piora do quadro do paciente
3. Diminui o impacto e a descarga de peso sobre as
articulações.
·
Motor:
1. Melhora da
flexibilidade
2. Trabalho de
coordenação motora global, da agilidade e do ritmo
3. Diminuição
do tônus (diminuindo as referências fusais)
4. Reeducação
dos músculos paralisados
5. Facilitação
do ortostatismo e da marcha
6. Fortalecimento
dos músculos.
·
Sensorial:
·
1. Estimula o equilíbrio, a noção de esquema
corporal, a propriocepção e a noção de espacial, já que a água é um meio
instável
· 2.
Facilita as reações de endireitamento e equilíbrio, visto que não existe pontos
de apoio e o paciente é obrigado a promover alterações posturais (flutuação e
turbulência)
· 3.
Diminui os estímulos proprioceptivos à medida que aumenta a profundidade, diminuindo
a descarga de peso. Efeitos psicológicos da água aquecida Bates e Hanson (1998)
e Degani (1998) concordam que como em todo programa de saúde, a hidroterapia
objetiva o bem-estar social do indivíduo. Quando passamos por dificuldades, o
organismo tende a se desorganizar e essa desarmonia pode trazer sérias
conseqüências físicas e/ou psíquicas. O bem-estar, segundo esses autores, não
consiste apenas em respostas do corpo, da estrutura física, mas, sobretudo, de
uma integração do corpo e da mente para a obtenção de resultados ideais,
levando a uma perfeita condição de exercício da cidadania.
BENEFÍCIOS GERAIS DA
HIDROTERAPIA
Muitos efeitos terapêuticos benéficos são obtidos com a imersão na água aquecida
(como o relaxamento, a analgesia, a redução do impacto e da agressão sobre as
articulações)
Os efeitos terapêuticos gerais são:
1-
Alívio de dor
2-
Alívio do espasmo muscular
3-
Relaxamento
4-
Aumento da circulação sangüínea
5-
Melhora das condições da pele
6-
Manutenção e/ou aumento das amplitudes de
movimento (ADMs)
7-
Reeducação dos músculos paralisados
8-
Melhora da força muscular (desenvolvimento de
força e resistência muscular)
9-
Melhora da atividade funcional da marcha
10-
Melhora das condições psicológicas do paciente e
11-
Máxima independência funcional.
Dentre os resultados de pesquisas publicadas
há efeitos terapêuticos da hidroterapia já comprovados por evidência
científica, dentre os quais destacam-se os benefícios como aumento da amplitude
de movimento, diminuição da tensão muscular, relaxamento, analgesia, melhora na
circulação, absorção do exudato inflamatório e debridamento de lesões, bem como
incremento na força e resistência muscular, além de equilíbrio e propriocepção.
Afirmam que o espasmo muscular pode ser reduzido pelo calor da água, auxiliando
na redução da espasticidade. Os autores sustentam ainda que a imersão na água
provoca redução do tônus muscular, enquanto que a dor pode ser reduzida por
ambos os estímulos térmicos. Além disso, a imersão na água facilita a
mobilidade articular, relacionada à redução do peso corporal.
CONTRA INDICAÇÕES
Há
algumas contra-indicações absolutas, como feridas infectadas, infecções de pele
e gastrointestinais, sintomas agudos de trombose venosa profunda, doença
sistêmica e tratamento radioterápico em andamento. Alguns processos micóticos e
fúngicos graves também requerem afastamento do paciente de ambientes úmidos. Processos
infecciosos e inflamatórios agudos da região da face e pescoço, tais como
inflamações dentárias, amigdalites, faringites, otites, sinusites e rinites
costumam apresentar piora com a imersão, por isso devem representar
contra-indicação .
Alguns cuidados são importantes como: ao
entrar na piscina, os vasos cutâneos se constringem momentaneamente, causando
um aumento da resistência periférica e aumento momentâneo da pressão arterial.
Mas durante a imersão as arteríolas se dilatam, ocorrendo uma diminuição da
resistência periférica e, por essa razão, uma queda da pressão arterial. Logo,
quanto maior a temperatura da água, menor deve ser o tempo de exposição. Já os
problemas cardíacos graves, além de hipo ou hipertensão descontrolada, devem
ser acompanhados com cuidado, bem como insuficiências respiratórias e epilepsia
ou uso de válvulas intracranianas. Além disso, incontinências urinária e fecal
merecem atenção especial. Problemas como náuseas, vertigem, doenças renais,
hemofilia, diabetes, diminuição importante da capacidade vital e deficiência
tireóidea, além de tratamento radioterápico recente devem ser discutidos com o
médico, para estudar a indicação. Pacientes com fobia à água devem ter um
acompanhamento criterioso, enquanto que pacientes com aparelhos de surdez não
devem utilizá-lo na piscina. Nem mesmo pacientes com HIV positivo são
excluídos, mas devem ser tratados no final do expediente da piscina, para que a
água circule o suficiente antes que outros pacientes sejam tratados.
Existem as contra-indicações gerais, como:
1-
Febre
2-
Ferida aberta
3-
Erupção cutânea contagiosa
4-
Doença infecciosa
5-
Doença cardiovascular grave
6-
História de convulsões não controladas
7-
Uso de bolsa ou cateter de colostomia
8-
Menstruação sem proteção interna
9-
Tubos de traqueostomia, gastrostomia e/ou
nasogástricos
10-
Controle orofacial diminuído
11-
Hipotensão ou hipertensão grave
12-
Resistência gravemente limitada
Referência bibliográfica:
https://repositorio.pgsskroton.com.br/bitstream/123456789/482/1/artigo%2010.pdf
http://www.sonafe.org.br/site/dyn_images/parecer-n-03-3-2014-fisioterapia-aquatica-hidroterapia.pdf





Nenhum comentário
Postar um comentário